22.9.05

Elementos de Teoria Literária - Fenomenologia, Teoria da Recepção - Terry Eagleton

(...)a principal obra de Heidegger, O Ser e o Tempo (1927) ocupa-se nada menos do que da questão do próprio ser - mais particularmente, do modo de ser que é especificamente humano. Tal existência, argumenta Heidegger, é em primeiro lugar sempre o ser-no-mundo: só somos sujeitos humanos porque estamos praticamente ligados ao nosso próximo e ao mundo material, e essas relações são constitutivas de nossa vida, e não acidentais a ela. O mundo não é um objeto que existe "fora de nós", a ser analisado racionalmente, constrastado com um sujeito comtemplativo: o mundo nunca é algo do qual possamos sair e nos confrontarmos com ele. Surgimos, como sujeitos, de dentro de uma realidade que nunca podemos objetivar plenamente, que abarca tanto "sujeito" quanto "objeto", que é inesgotável em seus significados e que nos gera tanto quanto nós a geramos. O mundo não é algo a ser dissolvido à la Husserl em imagens mentais: ele possui uma existência concreta, recalcitrante, que resiste aos nossos projetos, sendo que existimos simplesmente como parte dele. A entronização do ego transcendental feito por Husserl é apenas a fase mais recente de uma filosofia racionalista do Iluminismo, pela qual o "homem" marca imperiosamente o mundo com a sua própria imagem. Heidegger, ao contrário, afasta parcialmente o sujeito humano dessa posição imaginária de domínio. A existência humana é um diálogo com o mundo, e ouvir é uma atividade mais reverente do que falar. O conhecimento humano afasta-se sempre, e move-se dentro, daquilo que Heidegger chama de "pré-entendimento". Antes de chegarmos a pensar sistematicamente, já partilhamos de uma quantidade de pressupostos tácitos, obtidos de nossa ligação prática com o mundo, e a ciência ou a teoria nunca são mais do que abstrações parciais dessas preocupações concretas, como um mapa é a abstração de um terreno real. O entendimento não é, em primeiro lugar, uma "cognição" isolável, um ato particular que pratico, mas parte da própria estrutura da existência humana. Isso porque minha vida só será humana se eu me "projetar" constantemente para frente, reconhecendo e realizando possibilidades novas de ser; nunca sou puramente idêntico comigo mesmo, por assim dizer, mas um ser sempre lançado para frente, para além de mim mesmo. Minha existência nunca é algo que eu possa aprender como um objeto concluído, mas sempre uma questão de possibilidades novas, algo sempre problemático. E isso equivale a dizer que o ser humano é constituído pela história, ou pelo tempo. O tempo não é um meio no qual nos movimentamos, como uma garrafa poderia se movientar em um rio; é a estrutura mesma da própria vida humana, algo de que sou feito, antes de ser alguma coisa que posso medir. O entendimento, portanto, antes de ser uma questão de entendimento de alguma coisa em particular, é uma dimensão do Daisen, a dinâmica interior de minha constante autotranscendência. O entendimento é radicalmente histórico; ele está sempre relacionado com a situação concreta em que me encontro, e que tento transcender.

Terry Eagleton, Teoria da literatura: uma introdução, Martins Fontes, 1983, pp. 67-68

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