18.10.05

Luanda Beira Bahia - Tradição (Africanidade) Colonização

Em Luanda Beira Bahia, de Adonias Filho (Editora Bertrand Brasil S.A., 13ª edição, 1991), temos um romance de ficção, se não de costumes, muito mais de anseios, inquietações e pulsões existenciais. No intertexto de realidades africanas ou africanizadas (afrodescendentes) da obra, as personagens projetam-se em perspectivas histórico-vivenciais de "terra", em projetos e movimentos telúricos de manutenção e superação – talvez – de tradições e (con)tradições. Vem disso a multiplicidade? pergunta-se. Ou seria o próprio livro o monumento a uma grande, celebrada e hegemônica Tradição?

Percebi na fala de Adonias Filho a reescritura redimensionada, e (relativamente) reposicionada – refundada -, da saga da colonização portuguesa em terras "lusodescendentes": brasileiras (Bahia), angolanas (Luanda) e moçambicanas (Beira) – nesta última de forma dedutiva. Observamos no arranjo da narrativa, na constituição ideológica do entrecho do livro e das personagens, uma linha mestra, talvez também psicanalítica, de sobrevalorização do "português", não muito sutilmente diluída na prevalência do traço étnico, disseminador, luso. Uma lembrança/associação metonímica relativamente esmaecida e repintada do acento "valente", civilizado, universal, superior (europeu), incorporador e desbravador do "homem" colonizador, não especificamente da "cultura" (lato sensu) colonizadora em si, coisa que o autor não põe materialmente em relevo, a não ser quando do reconhecimento sub-reptício da confrontada inferioridade das culturas mestiças dos três estados colonizados, verbis:

"O mar levava os homens para muito longe. Voltavam alguns, quando voltavam, e outros desapareciam como se morressem.(...) Tinham que ir e iam como enfeitiçados. O resto do sangue português, talvez, cedo fervendo nas areias de Pontal [próximo a Ilhéus, Bahia] e dentro das cabanas dos pescadores (...) O Sardento, agora, era um deles." (p. 7) (Grifos meus.)

"Jamais esqueceria o que ouvira sobre o pai, a quem não conhecera, menos de um ano tendo vivido no Quibala [Luanda, Angola]. Um homem de passagem, oito ou dez meses, tempo bastante para engravidar a mãe e sumir nas funduras da selva. Caçador de crocodilos, o pai, negociava as peles. Metia-se na selva cinco ou nove dias, a barba nos peitos, o rifle e o machado nas mãos, a lata de querosene e a mochila nas costas. Esperava a treva para acender o facho, encadear o bicho, matava a machado. Filho de Portugal, forte e valente, [Iuta] não entendia o que ele, o pai, encontrara em sua mãe" (p. 44) (Grifos meus.)

Veja-se mais da caracterização do "brasileiro" Sardento, o marinheiro João Joanes, um dos personagens principais do romance, ao lado do seu filho, Caúla (a seguir o destino do pai), que alegoricamente reproduzem, respectivamente, espaços de colonizador e colonizado; dominador e dominado:

"A cara sardenta e vermelha de galo de briga, a cabelaça alourada, azulão nos olhos. Alto não era, mas forte, de peitos largos. Parecia um gringo" (p. 10) (Grifos meus.)

"- O mar, filho, é ruim – ela [a mãe] sempre dizia.
A jindiba falasse e não diria o mesmo. A árvore, que Caúla já aceitava como um pedaço de si próprio, conhecia o mar. As raízes na areia penetravam. Salgado o vento que movia as folhas." (p. 16) (Grifos meus.)

E, nesse contexto, ainda (e mais) dessa Jindiba:

"E ali já estava, alta e forte, quando se fez a casa (...) O silêncio, apesar das ondas e dos pássaros, era próprio desse campo tão próximo do mar. (...) E foi esse silêncio, pondo ouvidos na árvore, que lhe permitiu escutasse as vozes da casa. Em primeiro, durante certo tempo, vozes de homem e de mulher. Choro de criança a seguir, invadindo o ar carregado de maresia." (pp. 3 e 7) (Grifos meus.)

O autor me parece dar visivelmente à arvore, ao lado do mar, o estatuto da imanência da Tradição colonizadora; mas a tradição, como se percebe, tanto originária quanto incorporada. O mito genealógico: "árvore" que ouve o silêncio (onisciência e onipresença); "árvore", portanto, que gera, enquanto sêmen e ventre: [cria e mantém] vozes de homem e mulher; choro de criança invadindo o ar carregado de maresia. De Mar, de tradição – a expressão não-continental da Tradição portuguesa. A jindiba estava lá (e na simbologia da obra sempre esteve), com suas raízes no Pontal, tudo vendo e regendo magicamente: eis de fato a Tradição incorporada e incorporadora; a viga mestra, e dialética, da Colonização.

Em retomada necessária, um pouco mais do porquê, portanto, de se falar em superioridade, incorporação e dominação. Valhamo-nos de mais alguns trechos do livro no mister desse esclarecimento:

" – Mãe [fala Caúla], é a professora Maria da Hora – avisara."
"A mulher [a professora] , acurvada de tão alta e magra, grossas as lentes dos óculos para vencer a miopia, a saia abaixo dos joelhos, a blusa caindo reta que não havia seios, os cabelos de carrapicho, comeu o doce de caju com o queixo se movendo no rosto parado. Negra, as unhas sem pintura, os dedos sem anéis, o calor de contas no pescoço." (pp. 16-17) (Grifos meus.)

" – Roberto Pé-de-Vento chegou com a grande notícia. Sujeito alto e magro, negro de invejar o carvão, o maior amigo de Sardento. Pescador de saber onde os ninhos dos robalos e vermelhos, capaz de escorar sozinho um saveiro pequeno em alto mar, era um pertence do Pontal como a própria jindiba." (pp. 20-21) (Grifos meus.)

"E Caúla [em Ilhéus], erguendo a cabeça, não mais sentiu os próprios olhos. Uma imagem enchia-os. A moça de louros cabelos, olhos azuis, pele de leite e seios pequenos na blusa de renda. Não era a criatura mais linda que já vira porque havia o mar." (p. 26) (Grifos meus.)

"Mãe Filomena se deteve, muito espantada, com as mãos nas ancas. Acreditava [que Caúla era o filho de João Joanes], porque mestre Vitorino dizia. E se aquela femeazinha, Conceição do Carmo, sua neta, aparecesse? Rebolando, atraindo os homens, a vagabunda. Mulatinha de olhos verdes, cabelos corridos, seios grandes e coxas grossas, uma cachorra sempre no cio. Aparecia quase todos os dias, no almoço, caçando os marinheiros [em Salvador]. Seria inevitável o encontro com o grumete de mestre Vitorino." (p. 58) (Grifos meus.)

"Marinheiro que chega, antes que agradeça a viagem ao Senhor dos Navegantes, pensa nas quiandas. Moram nas águas de Luanda, são as sereias, transfiguram-se em peixes, mulheres e palmeiras. Não se pode olhar em torno – as prais e as ilhas – sem que se admita seja uma quianda o coqueiro ou a própria areia cor-de-leite." (p. 40) (Grifos meus.)

A relativa presença da tradição-alienação (aqui mais incorporada) leva o autor a assinalar as semelhanças materiais - algumas outras de cunho predominantemente ideológico foram já demonstradas -, entre as afro-colonizadas Bahia e Luanda - principalmente (e Beira):

"Ali, na coberta [do navio], Caúla via as manchas cinzas [de Angola], muito distantes, e sabia que grande era o mundo dos africanos. Selvas por dentro, feras em liberdade, tribos dançando. Pedaços vivos desse mundo estavam na Bahia, as gordas velhas sentadas frente aos tabuleiros e panelas de acarajé, negras de Angola, a própria Conceição tinha muito daquele sangue." (p. 117) (Grifos meus.)

"As praças velhas [em Luanda] de séculos, cercadas pelos sobradinhos magros e os casarões pesados, tão iguais às de Salvador da Bahia que até o calçamento é o mesmo. Ver os mercados, sobretudo aquele dos pobres, é voltar à Bahia. É andar de novo com os negros, comer as mesmas frutas, pegar no ar o cheiro do dendê fervendo." (p. 40) (Grifos meus.)

É nesse cenário, no cenário da identidade da "terra" (ou terras) colonizada - a que Caúla, contrariamente ao pai, é mais "apegado", apesar do "sangue" - e nessa altura pode-se dizer, sangue mesmo português -, que o filho do marinheiro João Joanes, depois de "navegar", encontra o resgate de sua própria identidade, e tenta estabelecê-la relativamente fora do domínio determinista da tradição. Apaixona-se pela também mestiça Iuta, neta de português e angolana, mas não só isso: sua irmã paterna. Brasil e Angola, num grito de liberdade, unem-se num traço de identidade dos mais fortes: de amor, mas de tradição incorporada. Mas também tragicamente de sangue, tragicamente porque, como dito, sangue do pai português.

Caúla fora sapateiro em Ilhéus, e depois de uma desilusão amorosa com Conceição do Carmo resolvera correr o mundo a navio, mas nunca fora, como se percebe das notas do texto, marinheiro inveterado como o pai Sardento: daí a costura dialética de uma espécie de neo-tradição, resultado da Tradição incorporada ou revista/repensada. Encontra Iuta, alma gêmea, que quase que misticamente compartilha da mesma concepção de mundo de Caúla, e que depois de um acidente em Angola resolve, por iniciativa do amante, voltar com ele para o Brasil, para a casa do Pontal, ao lado da velha jindiba, que do ponto de vista marxista estaria ao mesmo tempo na base e na superestrutura ideológicas do enredo; e voltando Caúla ao velho ofício de sapateiro, deixando o mar, num sentido simbólico de conciliação plena com a tradição revista/incorporada.

Como elemento de ruptura e reafirmação, resgate, da velha, monolítica e hegemônica tradição, surge (novamente e ressurgirá sempre que for necessário) o sangue, o sêmen de João Joanes aos dois filhos: os dois reconhecem, na chegada a casa, o pai como pai de ambos (Iuta é filha do Sardento quando de uma passagem dele por Luanda), e o pior: como avô do futuro filho deles, já que Iuta tragicamente estava grávida do irmão, Caúla. A identidade (ressignificada) torna-se banida, na violação da interdição.

Angola e Brasil, numa relação incestuosa, como "Prometeus" pegos em pecado com um fogo novo, um novo uso, um novo costume, uma nova práxis, ou Adão e Eva na sua ingenuidade e inocência, são devidamente punidos pela Tradição: João Joanes mata os filhos na casa do Pontal, logo após o reconhecimento e a maldição do filho: "Pai dos infernos!" Suicida-se logo após.

Fica clara, em seguida, a reconciliação proposta por Adonias Filho na recomposição do equilíbrio ideológico do enredo, do imperativo do tradicional, "com a Jindiba":

"- Vamos! – exclamou um dos pescadores.
Mulheres surgiram, não muitas, flores dos quintais nas mãos. Debruçaram-se sobre o caixão de jindiba e, dentro, viram o Sardento sozinho, em frente. Abaixo, lado a lado, Caúla e Iuta. (...) Pé-de-Vento [negro pescador do Pontal, amigo de Sardento] atrás, a seguir sem pressa, a pensar que deviam pôr um velame. Um velame de saveiro pequeno na canoa que era o caixão, largá-lo em mar alto, João Joanes e Caúla gostariam daquela viagem como bons marinheiros. O negro, pensando, a andar.
E, com o velame aberto, fariam novamente a viagem por Luanda, Beira e Bahia." (pp. 138-139) (Grifos meus.)

Vale dizer que o autor de Luanda Beira Bahia também nos dá a sua visão – sutil - de acomodação da tradição com a modernidade, sem no entanto, subliminarmente não abrir mão da proeminência do tradicional como elo por excelência de fundação e refundação, re-situação de categorias, estados e valores:

"Muito para se olhar em Ilhéus, muito mesmo, a estrada de ferro e a feira, sobretudo o centro com a lojas, as ruas calçadas e os postes de iluminação. Dia-a-dia, aos poucos, foi descobrindo a cidade. Apertada pelo mar, quase uma ilha, pequeno labirinto de ruas estreitas que chegavam até ao pé dos morros. (...)
"Quando retornava, para encontrar a mãe sempre debruçada na janela, Caúla não via a jindiba. Passava rápido, quase correndo, já não sentindo a presença da árvore que era, agora, um objeto como as pedras amontoadas no oitão da casa. Ela, a jindiba, sabia que o menino não tardaria a empregar-se. (p. 20) (Grifos meus.)

Lucas Tenório

1 Comments:

Blogger Naiara LuaNova said...

Obrigada, ajudou a esclarecer alguns pontos das representações estabelecidas no livro.

domingo, junho 13, 2010  

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