14.8.06

Livro de poemas - à espera de patrocínio para publicação

Lucas Tenório - lucastenorio@gmail.com



Pedra angular


É pétrea a angulação
da hóstia ao intestino
Se é vera a oblação
do ovário feminino

Ovário em sangue e luz
na curvatura seca
urdidura resseca
de pele em ponto cruz

Costurada na foz
do oásis placentário
demais deficitário
do que também na noz,

Segrega pedra e areia
e então por sua tez
engilha mãos e pés
em encarquilhada teia

Demais desidratada
das marcas digitais
por traços minerais
de linfa emasculada

Estátua burla em sarro
por vida aparentada
moldura alienada
de boneco de barro

Moído na moenda
do canal da vagina
e coado na tina
Em boneca de renda

No assexuado ai
da gênese do grão
ressequido no chão
da semente do pai.

Lucas Tenório


Pequeno Santo Antônio

Argamassa do caminho
nos bueiros conformada:
terra do rato e arauto
de palavra alimentada.

Uns pés de pilão, moinho
mãos de ladrão de tempo
Cortam-se cocos nos conventos
em frente à Casa da Cultura.

A moldura que os olhos vêem
da praça Visconde de Mauá
É de um banco bem pra lá
dos travestis de plantão.

Pegue a contramão
e chegue à estação do metrô
Pergunte-se para onde vou:
cola, pipoca, cocada?

Argamassa do caminho
nos sapateiros conformada
terra do homem e calçada
de poeira apalavrada.

Lucas Tenório


Olaria
Da visita, à porta de entrada
um alpendre espreita
o que a colheita requentava

Na vasilha e forno
mingau de arroz
logo depois
adorno e torno

De um indivíduo maleado
pelo prosaico
do facão


E no prego uma parede
um alçapão
de rede

A nos dizer da entrada
ferro e tijolo
e de um monjolo
de água parada

Esquadrinhado o aposento:
dedo, alicate e vagina

E um arremedo de infante:
quase sem medo
edulcorante
de sacarina

Nem sequer chora
contorna e ora
se espreme e coça
enquanto cora

A carne escura.

Urina, salga, apura
o cozimento.
Pedra e cimento
arquitetura.

Lucas Tenório

Pedra de Toque

Há pedra em cerebelo
no córtex também
no metal de vintém
do grampo de cabelo

Do nódulo de carne
se pétreo fosse o intento
e carnal fosse o centro
da vagina de Carmen

Um centro unitário
em vão vereda e palco
corpúsculo urinário
de estilhaçado escalpo

Há pedra no clitóris
há nesse anel venéreo
de vulva em climatério
o espedaçar de um giz

Que pode ser lembrança
se meio aquoso fosse
o intencional que trouxe
o grampo ao pé da trança

Há cabelo no sol
que desidrata o grito
do gozo do cogito
embalsamado em pó.

Lucas Tenório

Quiseram me convencer de que o Capibaribe é uma fossa
O formalismo geográfico
do esquecimento geológico
a desapropriação da terra
de que a excrescência se apossa
quiseram me convencer
de que o Capibaribe é uma fossa.

Uma sucessão de pontes
o convencionalismo historiográfico
um cão em sua lídima cova
onde as plumas desmaiadas escorça
quiseram me convencer
de que o Capibaribe é uma fossa.

Um cartão postal retocado
pela computação estatal
o cenário da ponte aérea
no cotidiano da aeromoça
quiseram me convencer
de que o Capibaribe é uma poça.

Os despojos do poeta vadio
na lembrança de Austro Costa
uma sede imensurável
de quem só almoça carcaça
quiseram me convencer
de que o Capibaribe é uma traça.

Uma cidade chamada Recife
esquife dialético do novo
um canteiro podre e febril
um intestino, uma víscera, um ovo
quiseram me convencer
de que o Capibaribe é um estorvo.

Lucas Tenório


Noite
Sonhei com um soneto somente.
Era apenas um soneto, um soneto só.
Um soneto tão sozinho que dava dó.
Sonhei com um soneto, indiferente.

Era apenas um soneto, soneto mudo.
Ele não pedia nada, não me falava.
Entretanto me encarava, a tal me olhava
Como se quisesse pôr-me a par de tudo.

Mas era apenas um soneto, era mais um
Era apenas mais um sonho, mais um perdido
E era apenas um olhar, olhar algum...

Noutro dia outra manhã, novos olhares
Dessa velha solidão nos calcanhares
E um soneto a me espreitar, adormecido.

Lucas Tenório


O urubu imperial
Se um pernalta avoante
pousa no nosso rio
qual peixe, que peixe
sentirá frio?

E se na barriga do pescador
o anzol se acomodar
qual garça
regurgitará barbante?

Se na ponte o espectador
nada vê, nada sente
que imagem de defronte
senão um tosco Guararapes

Pescador, garça, peixe
todos agora são mascates
venderam o rio ao lixo
e o bicho os desfez de gentes

Pescador é doutor
Garça é comparsa
Peixe no novo reich
E o rio?

O rio leva ferraris
mansões, iates, foguetes
mal se lembra do azul
É agora pele e carcaça.

Lucas Tenório


Papel de Parede

Entre o avesso recortado, entre a serra
Maquinalmente empregada
A palavra cresta escrita, nela berra
A celulose decepada.

Berra o gemido chiado
O ranger dos dentes incisivos
E em todos os prados
O laminar lascivo.

Lascivo na palavra
Víscera, ferro, ventre
Que o corte de por dentro, entre
Escalavra.

Abre-se-lhe um duto, um traço
De caligrafia erótica
Numa balaustrada gótica
De braço a terraço.

Dos morfemas, antes células
O adorno do corpóreo espaço.
Num bailado de libélulas
De anca a espinhaço.

E se a casa verbal é língua
E a casa da casa monumento
Escrita em sua dor, à míngua
No antigo testamento,

Dói a dor do corte, em Adão
Do pênis que agora é falo
Dói o corte do papel, cambão
Num verbete em que não falo.

Lucas Tenório


Habitat
Que habite no meu poema.
Seja ele casa
com as paredes ortogonais.
Sei que não a casa de Vinícius,
sem chão,
o largo dos pacifistas.

O meu modesto poema requer
um mocambo freireano.
Sei que não o mocambo alagoano
do guerreiro das senzalas,
da tribo dos Palmares,
nova Tupinambá.

O meu verso de taipa e argila,
a sala do sertanejo Lampião.
Sei que não a casa do Conselheiro,
o de lá,
com seu lajedo que ainda hoje cintila
ao sol de Belo Monte.
(a casa do desmonte dos generais)
Reerguida atrás do front,
bem aqui atrás,
na ante-sala-gleba do testamenteiro.

O meu poema requer uma casa,
um monumento ao séquito brasileiro.
Sei que não ao séquito modernista,
regionalista, concreto ou pós-moderno.

O meu poema só neste caderno.
No sêmen dessas poucas palavras.

Lucas Tenório


Lá vem o beco
Lá vem o beco
Figura caricata.
Pedras
de construtor
e uma prancheta de arquiteto
na pasta.

O beco quer uma perimetral -
diz ao seu poste único.

O beco intimidou o paisagista.

Tirou da maquete de um boteco
uma dose.

Incendiou-te o arquiteto?

Tem funerária no beco.
Ouviu-se um grito seco:
Foge, beco!

Lucas Tenório


Açougue
Da carne o osso é parte
é parte o sangue frio
na arcaica e escarlate
demão que a coloriu

Em tons do arco-íris
digestivos do sol
que a carne em sua bílis
fulgiu num urinol

Do mesmo barro opaco
que pretendeu lustrar
algo tampouco laico
e por sacralizar,

A urina doce e quente
da terra desposada
a subserviente
costela desossada

Em matiz de placenta.
Depois do incesto lato
na cria empoeirenta
num berço caricato,

Choro de um quase-deus
na dor da pedra manta
que medra o sangue seu
em verbo na garganta.

Lucas Tenório


Recife
Recife. E Recife quase sempre
ou quase não foi lauda num poema
Recife na nuança da eritema
que em rubro lhe esmaiava o transparente.

Recife, ou Recife, quase nada
e quase não foi nada, quase nunca
Recife quase tudo que caduca
na fala que se fala alienada.

Recife, do Recife, quase tudo
Que o brado fez embriagado e ousado
Recife, quase tudo, mas um pouco
do grito estertorado, quase mudo.


Recife, de insídias em seus planos
Recife, publicano tão prosaico
Um grito de profeta americano
Um gesto antecipadamente laico.

Recife, do teu sangue o rubro veio
Não és cidade, és universo alheio
Recife, te sondar no indiferente
É te encontrar intruso no meio seio.

Lucas Tenório


Osteogenia
Do osso a histologia
na lente perquirida
diz-se do osso vida
crânio a filosofia.

Diz-se da osteogenia
que é pedra em água-viva
de sangue, humor, saliva
estirpe e fidalguia.

Diz-se pedra de toque
de todo um esqueleto
do corpo humano feito
forquilha de bodoque.

Forquilha de arremesso
de sangue, pedra e cal
esticado em varal
de corpo pelo avesso.

De corpo em inversão
do que lhe é ancestral
herança mineral
de corpo aluvião.

De corpo feito leito
de um rio em preamar
na foz sedimentar
dos seus vasos estreitos.

Por vasos onde escorrem
a pedra, o vento o sol
a nuvem e o farol
que nesse corpo dormem.

De um corpo feito quente
de pedra seixo togas
de peixes entre as algas
num escopo incandescente.

De um corpo em investidura
parindo luz e vida
na lente perquirida
de alma etérea e pura.

Lucas Tenório


A sedução da pedra

A pedra é antes força
De gravidade-ser
É profusão de só
Em profusão de outras.

A pedra como outra
É mão que a sopesa
É olho que a enviesa
Em traço geometral.

A pedra do quintal
É pedra do inquilino
No abaulado sino
Do copular metal.

Do metal do menino
Da pedra de portão
Do maleável chão
De terra seminal.

Da pedra-mor de peso
A pedra é feita lar
De globo ocular
De pedra intestinal.

Mas pedra é pedra outra
Em pedra de desejo
Na pedra de cortejo
Por pedra mineral.

Vê-se que a pedra é mesma
O tinido do sino
A palma do menino
O visual da lesma.

Lucas Tenório


São Paulo
São Paulo,
Eu queria te ver
No meu rosto já não há
Os teus traços vis-à-vis.

São Paulo traz-me aqui
O mentor do Tietê.
A placidez daquele mar
De concreto calculado.

São Paulo desbravado
Angulado em quem te quis.
Os teus prédios monumentos
Os sacramentos guaranis.

São Paulo entrincheirado
Nas modernas conjecturas.
São Paulo as iluminuras
Dos vitrais maquinofaturados.

São Paulo tens mesquitas?
São Paulo sinagogas.
Tuas palavras-igrejas
Os urbanitas de Rita.

São Paulo tens em voga
Os meus credos de cidade.
São Paulo latinidade
Ascendente em lua nova.

Lucas Tenório


Eu sem nadaVastas sombras, desfolhadas de agonia
Vastos olhos, desfocados, baços
Vastas faces, esquecidas nos terraços
Muitas flores, sob o sol do meio-dia.

Vastos sonhos, e a tessitura de suas teias
Vastas almas, em seus guetos infinitos
Várias danças, vários cantos, vários gritos
Muitos risos, ao clarão da lua cheia.

Um convite a deitar em plena rua
Vários corpos, numa mesma pele nua
Vastos uivos e gemidos de prazer.

Vasto silêncio, sem pergunta que fazer
Vastos beijos, no azul desse oceano
E eu tão só, tão sem ninguém, eu tão insano.

Lucas Tenório


O ventre-mangue
O ventre é pedra oca
É pedra ainda sangue
Que na pedra de mangue
É loca de maloca.

É ventre de vazio
Que atomizado fica
Na pedra que se estica
Em coito-ventre-cio.

É pedra de estio
Que a sede pavimenta
Na construção sangrenta
Do ovo-ventre-rio.

Do ovo, ventre-pedra
De pedra ventre-feto
Em feto-ventre nada
De comunhão de água.

Se água é pedra-nada
(E disso a pedra nega)
A terra-pedra cega
Faz dela pedra-aguada.

E nessa pedra sangue
Flutua a pedra-gente
Em pó deliquescente
De pedra-pó de mangue.

No ventre-pedra mangue
A pedra se completa:
O ovo-pedra cresta
Na gente-pedra exangue.

A gente-pedra exangue
É recife de pedra
De urbe-sal que medra
Em gente-pedra-sangue.

Em sangue-pedra-quente
O ventre pari ponte
De rente-pedra fonte
Em mangue-pedra-gente.

Lucas Tenório


O ponto ocaso
Pondo à noite o crivo no vaso
e a fenda em orifício permeável
feita a luz o risco do atrito
que do crivo faz um grito.

Se descoberto o vaso em cálice
e em verbo o silêncio interdito
que se diga o motivo presto:
A janela em sol postiço.

E manchado o chão em vinho
e em luz o quarto está sozinho
mas a terra, qual esponja
beberá o sol ao teto.

Dessa lâmpada, leve o inseto
embriagado em éter-nectar
num esquife rebentado
cairá decrépito.

Pondo à noite o crivo na chama
e ao dissipar a voz carbonizada
restará ao sol da vela
a amplidão pedrada.

Lucas Tenório


As Casas

As casas.
As casas e suas lembranças
passeando nos jardins ou debruçadas
no parapeito das janelas.

As casas com seus muros
oitão e quintais.
E suas gentes.

Casas com sorrisos de bom dia,
fuxicos nas calçadas e muita história
pendurada nos varais.

Casas com alegria, com parentes.
Tias, pais, irmãos, avós
e na esquina a padaria.
Mais à frente uma multidão.

Casas com nascente
poente e paz.
Casas do ocaso, bolo inglês
e um luar ao alcance das mãos.

Casas com as galinhas
e ao menos um galo das quatro da manhã.
Casas de alvorada, alvenaria.

Ah, casas.
Havia casas
que viviam conosco,
e mais nada.

Não as casas do amanhã.
Casas sem caso.
Casas de ferro, xadrez.
As casas catamarã,
pequenas e que nos levam
ao décimo terceiro andar
em gaiolas com os passarinhos.
(E ainda há vez para esses bichinhos?)

Há casas que nos guardam
sozinhos, neuróticos.
Ao acaso.
Casas desacasaladas, descasadas.
Assexuadas ou hermafroditas.

Ah, casas malditas e desocupadas!
Estamos fartos
e noutro lugar.

Nessas casas, ao entrar,
só nos resta pedir de joelhos:

Dê-nos asas.
Dê-nos casas.

Lucas Tenório


A ostra e o vento

O vento traz no peso
repuxada na vaga
em arco espoletada
a ogiva de seu vezo

Liame granulado
em braço ambivalente
pavio impubescente
de um pendular petardo

Que ora leva o vento
ao átrio do abismo
e leva a pedra ao sismo
o ventre ao movimento


O vento cai vazio
de areia quando reto
maturo e de arquiteto
é redondo e no cio

Redondo o vento vela
a todo sedimento
a crosta e a caravela
são excrementos de vento

Carcaças correlatas
no mais suave aroma
lascivo o vento doma
matérias putrefatas

No gozo a ostra exala
o sal do feromônio
calderado o hormônio
que o vento traz na gala

E prolifera o coito
em profusão de esperma
berçário, gesta, intróito
e gênese de terra

E o mar vira sertão
num barro encarquilhado
e os rios e alagados
evadem-se do chão

Na fenda, a ostra está
prenhe do galeão
guardada em ovulação
a vertente de um mar

Num corpo desertor
costela de calcário
coroa, escapulário
e mãos de pescador.

Lucas Tenório


papel ofício
A parafernália do dia
encontra-se pendurada no horizonte

vésper, rinoceronte e máquina de escrever.
No ocaso, todos vão para casa:
tatu, urubu e mandacaru
na goela do ruminante.

O poeta até tenta:
clica e cospe.
Clipe e pelica o assessoram no ofício.

Lucas Tenório


cadaço e gravata

O cadaço do sapato
amarra o pé.
O pé tem seus dedos
Cada dedo com seu medo
Cada pé com seu arremedo
de forca.

Sei que o cadafalso
não faz
calo

meus medos
pendurados nos meus dedos
apertam a gravata.

Lucas Tenório


Sal-da-de
Saudade imensa, sinto.
Intensa e impressa
faça-se dela sem fastio.

Sinto uma imensa saudade
que se afasta do usual.
O escrito dê-lhe gostos
de língua informal.
Sinto uma falta grande
que tempera o prato esperado
sonoridade aguada
ganhe beiços rebuscados

Sinto o sal da falta
de dedo em dedo composto:
Quem me dá um tira gosto
e a aguardente destilada?

Lucas Tenório


Lições Elementares da Pedra - II
O encontro com o nada
recorrência estética
da prole hígida
asséptica e vacinada
por anticorpos laudas
vazias.

O encontro com o branco
recorrência hermética
do alçapão fechado
do vaso furado
e do tamanco descalçado.

O encontro com o tronco
desenraizado, filhos adulterinos
sentados
no banco do trânsito do alcochoado vazio.

O encontro com o pavio
do barril de fogo
e o cadinho de gás
em metal de logro
em que nada faz
o que é nada em dobro.

Lucas Tenório


Lições Elementares da Pedra - I
Cacos rasgos de vidros toscos
Se digo da pedra o
fosso
em que aresta o fosco
estará para a luz exposto?

E se a aresta recortada
entre
o grão de areia
e a espada for uma lápide côncava?

E se a onda que quebra no rochedo
a concha engoli-la troncha
por sua face enviesada?

Restará aguada
acesa
triturada a luz
espargido o pus
da fenda descarnada.

Lucas Tenório


Eclipse

O sol em proto-esfera
pelo luar levita
fragor, fragrância, vista
e o fumo das crateras

O sol da cor despela
em luz que regurgita
a cintura contrita
de amarela gazela

Na cal de primavera
aposto um seminal
na fossa genital
do caroço da, pera

Em orbital ambíguo
de um hermafrodita
prender atado à cinta
o outro lado do umbigo
Do ânus, casca basta
feito o parto do escuro
um feto fosco e anuro
emprenha sua madrasta

No mesmo intervalo
em que relincha a égua
e que a maré sonega
o esperma do cavalo

Endurecida a cinta
e cego o nascituro
perpassa o palinuro
a luminância extinta

E o coito se encerra
num orgasmo monocórdio
num preciso relógio
agônico de terra

Quebrado da placenta
o umbilical enlaça
a garganta da taça
herege e sacrossanta

E volta o grão ao estrume
e o ventre ensangüentado
celebra fecundado
o sombreado lume.

Lucas Tenório


Vitruviano
Engaste, pedra e torso
em via férrea
ruflado em rédea
o cavalo vapor

Cavalga alcantilada
em simbiose argêntea
a diligência
do motor

Olha-o a ambigüidade
em carne e do metal
proporcionada
do animal

E nenhuma dor passiva
na passada
descarrilada
da locomotiva

Fê-la mais que nada
além da pata-quilo
esculturada
em Vênus de Milo

Feito impotente aos pés
ferro e ardósia
na ataxia
doutro Moisés

Desenfeixada a derme
no coice intento
ao monumento
lingual do germe

Eviscerada e rente
na quadratura
caricatura
enclenque e quente

Vai circunscrito
à rosácea esfera
em litosfera
de antanho atrito,

O vitruviano chão
laçado a nó
varrido a pó
da ilustração.

Lucas Tenório


A face oculta da sombra
Falar de sombra em pedra
é dizer-lhe da pluma
no dizer que arremeda
lamparina nenhuma.

Na réstia do intestino
de pedra a sombra brilha
na íris do inquilino
estilhaçada em quilhas.

Na íris sombra-marca
de fractais dormentes
em antiincandescentes
soalhos de barcaças.

Ancoradas a fio
de ouro e de barbante
cordames de extravio
em treva naufragante

Engolfada em um sol
de feito estomacal
espelhos de um atol
de lava gutural.

Em luz que é haurida
em sua opaca cama
matéria preferida
do leito de sua chama

E a luz e sombra dobram
o mesmo e ambíguo sino
no ferro em que se forjam
os vãos do cristalino

de transparência muda.
Dos olhos palpebrados
a sombra-luz exsuda
o grito imatizado.

Lucas Tenório


Redoma
Falam perto de mim, me acercam
Tocam em meu corpo encurvado
Pedem-me desculpas, lacerado
Sei que a fé me diz o quanto pecam.

Agora se afastam, em desalento
Tristes são os que erram pelo nada
Minha alma queda-se calada
Não se passa nada num momento.

Um silêncio profundo me assoma
Distantes são as vozes, quase mudas
Rezo para que a indiferença os tome

Pelo pulso. Sei de todos os seus nomes
Algum deles já ouviu Pablo Neruda?
Deus, me dê por templo uma redoma.

Lucas Tenório


Perspectivas
Envolto em olhares tristes
enclausuro-me nas perspectivas
de circunstantes, transeuntes
em traços de solitude e torpor.

Ao transpor os pontos limítrofes
das ansiedades cuidadosamente
veladas,
fujo pelas vastas estradas
que me conduzem às personalidades.

Vago em cidades, presídios,
onde a ilusão encontra pousada.
Manhãs que descerram quimeras
e geometrias que se desfazem em pó.

Vejo os dias em suas extensas eras,
em tardes de deleite e abandono.
Sóis de sutis primaveras
e ventanias de luares etéreos.

Em lances aéreos me atenho
e me pego insone em anseios
daqueles que ainda não vejo,
mas que onipresentes me chamam.

É noite, e por fim eles clamam
e me pedem por apenas um beijo.
A saciedade de seus muitos desejos.
A catarse de seus vários instintos.

E então me pergunto o que sinto
se tão só me apanho amiúde.
Como obter a cumplicidade
de rostos distintos e dispersos.

É assim que lhes proponho
a saudade,
a minha vida em meus versos.
A sensibilidade esquecida
A minha utopia
o meu sonho.

Lucas Tenório


Luz, Alfazema e Pão com manteiga

Onde é?
É numa venda?
Que eu vá com uma venda
às quinquilharias.
E não profanem meus sentidos -
(banha, ovos e ninharias.)

Quando menino eu comprava
bala de amendoim, chiclete
e um carretel de linha.
Papel de seda, picolé
com um álbum de figurinhas.
Mas não profanem meus ouvidos:
(pequenez, arrogância e mesquinharia.)

No Carnaval tinha bisnaga,
óculos d`água
e dente postiço de vampiro.
Mas não profanem tudo aquilo:
(aridez, cegueira e antropofagia.)

- Luz, Alfazema e Pão com manteiga...

Lucas Tenório


O Sapo
Vestiu-se o Sapo de jaqueta
E pegou sua lambreta.

Sol a pino, concreto, asfalto.

Trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

A britadeira.

O Sapo, da algibeira,
Coloca o protetor auricular.

- Não viu o apito, motorista?
- Não ouviu a placa

PARE

O Sapo, à guisa de dislexia,
Esnoba o fiscal policial.

Tira do bolso o cartão:

SAPOPARASAPO
GUARDAPARAGUARDA
RAIOPARARAIO
PARASAPOPOSSA
PARARAPARARABARBAEBABAR

Seu guarda.

SOPASSARPARASAPAR

APARARABARBAEBABAR

Seu guarda.


BOLAPARACOLA
DOLARROLADOCALO

OKAPA

O Sapo aguarda.
O Sapo aposta...

SAPOEPAPO
SAPOESOPA

Eu?! Que nado!

SAPOAPOSOSINALSALTAR
Sapo é brasileiro...

SAPOAPOS

O fiscal dá partida com o Sapo no camburão.

Inheminheminheminheminhem
Inheminheminheminheminhem

Inheminheminheminheminhem

Inheminheminheminheminhem


TAXITAXITAXITAXITAXITAXI

TAXITAXITAXITAXITAXITAXI

TAXITAXITAXITAXITAXITAXI

TAXITAXITAXITAXITAXITAXI




PUTAQUEPARIU

O Sapo atado se riu...


TAXITAXITAXITAXITAXITAXI

TAXITAXITAXITAXITAXITAXI


TAXITAXITAXITAXITAXITAXI


TAXITAXITAXITAXITAXITAXI

Pois não seu guarda?

EIACADEIA
Cadê?!... Olha, é bandeira 2, vai?


PUTAQUEPARIU


(O Sapo autuado sorriu.)

Lucas Tenório


A seca

Túrgida e rarefeita
vejo a seca
na folha de papel

Aqui do meu cinzel
a rachadura é feita
no balcão da cozinha

E a espinha de peixe
na lata de sardinha

Túrgida e satisfeita
a carcaça seca
na colheita e na pesca

Dois galos de sangue
um verde e exangue
outro ocre e matinal
colocam sal no dia

Eu corto a seca
na lembrança que não tinha

Eu colho a penca
da palma
da mão

Eu digo não ao Sol vermelho
e na rachadura
há pinho
sol nos calcanhares de maria

No seu espelho
os meus olhos no seu ventre
para entre
galos
tê-la

fria e imaculada
ejaculada do meu falo.

Lucas Tenório


O meu caminho

Eu não sei bem aquilo que quero
Nem o que de mais queira eu não sei
Tenho certo só o quanto os espero
Certo estou, cedo ou tarde os terei

E o que espero, como vem, nunca sei
Sei que é minha, só minha encomenda
E sei dela que se dela não entenda
Fora ela o que de mais dela estudei

Estudei o que soube, quase nada
Estudei a essência, o que passa
A procura, o que virá na invernada

De minha vida, e que seja para sempre
O que busquei, o que quis, e esteve ausente
Noutros versos, deixados na estrada

Lucas Tenório


Arranha-céu
Posto em ereção
o aço rijo
soterra o mijo
no chão

Um cão num alçapão
montado na cobertura
da investidura
do vergalhão

Alcança ao salto
do que se verga
com o que se rega
um bloco de asfalto

Amalgamado
em dorso e fibra
a quantas libras
desidratado

Condensa a cal
de pele turva
a fácies curva
degrau a degrau

Cada dorsal
articulada
e emparelhada
do animal

É um grito surdo
no tempo estreito
de um parapeito
intruso e ludo

Ao vento.
Cata-ventos nos andares.

Lucas Tenório


Engenharia
Onera o espaço o laço
uma cabeça é de quê?
O compasso traça o curral
de pernas abertas.

O roçar dos dois dedos
é signo ultrapassado.
O compasso onera o espaço
de anca a joelho.

Desonera o espaço a proveta?

O compasso traça os pêlos
da silhueta.

Onera o espaço o baço
uma cabeça é de quem
O compasso traça o animal
de pernas abertas.

Lucas Tenório

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Blogger O Garcia do Outeiro said...

Exquisita a qualidade do seu blogue a si como a da sua poesia. Um abraço fraternal desde a Galiza.

quarta-feira, março 10, 2010  

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