26.10.05

Palmares, Canudos e os Negros Norte-Americanos

Soube, pelos telejornais, da recente morte de uma ativista negra norte-americana, Rosa Parks, que marcou a história com um gesto: negou-se a ceder o seu lugar, num ônibus, a um homem branco, na época – década de cinquenta - em que havia nos Estados Unidos a determinação de que os negros deveriam andar nos assentos de trás dos coletivos e os brancos na frente. O então ainda desconhecido - e segundo as matérias dos jornais - Martin Luther King, organizou, a partir desse episódio, um boicote às empresas de ônibus que levou o governo e o poder econômico à paulatina revisão dessas discriminações.

O que me despertou uma notícia como essas foi a renovada reflexão e certeza do quanto nós, a maioria dos brasileiros, estamos distantes de entendermos como poderíamos efetivamente mudar o nosso país, e principalmente num momento como esse, em que vivemos uma profunda crise institucional e dos poderes estabelecidos.

Creio que apostamos – essa considerável maioria - demasiadamente na eventual força mobilizadora e transformadora das nossas instituições, o que a princípio seria, não fosse isso parte de um condicionamento e alienação estruturais, um sinal muito positivo de respeito e confiança na nossa Democracia e em seus valores fundamentais. Entretanto, todos nós brasileiros sabemos – talvez a minoria restante - como essa nossa democracia - por várias razões que se fôssemos comentar razoavelmente requereria um extenso texto à parte - é muito mais formal que procedimental, e como nossas instituições, ou a maioria, estão visceralmente contaminadas por uma cultura sócio-político-econômica corrupta, autoritária, patrimonialista, nepotista, de tráfico de influência e abuso e desvio de poder.

Particularmente me lembro da época em que Miguel Arraes voltava ao governo de Pernambuco, em 1987, e que simultaneamente Jarbas Vasconcelos era prefeito do Recife. Eu, na época com 17 anos, acreditava nas transformações, porque o discurso da “Esquerda” de então, no Estado, era o melhor possível: de mudança, de conquistas para os excluídos, de igualdade social, de reforma estrutural. Passaram os governos, Jarbas deslocou-se mais para o “Centro”, Arraes morreu (em que pesem as coisas boas realizadas, a bem da justiça), e continuamos “reféns” de retóricas políticas formais salvacionistas, na figura de líderes políticos “de carreira” (alguns bem intencionados), com um Estado e um país agonizando em problemas como a violência, a miséria, a fome, a corrupção, a concentração de renda, a desigualdade social. Antevejo por isso, posso estar enganado, o recém-nascido P SOL como o PT de amanhã - com todo respeito ao PT e aos quadros do P SOL -, e por considerar os adventícios desse nosso processo político-eleitoral suficientemente “contaminados” pelas práticas nefastas a ele imanentes, que mesmo dialeticamente seria difícil pensá-los como vetores de mudanças orgânicas.

Penso que haja esse equívoco. A cidadania brasileira deveria verdadeiramente e diretamente mobilizar-se, como fez a ativista norte-americana, no enfrentamento aos nossos problemas sócio-político-econômico-culturais. Entender que o que possa parecer um simples e débil gesto, como o poderia ter sido o da norte-americana, representa – se disseminado - (difícil, sabemos, para a nossa tradição patriarcal, paternalista, autoritária e centralizadora) uma ação consistente contra o cerne do problema, e que se universalizado redundaria num golpe decisivo para a reprodução e portanto continuidade do que se combate, provocando a sua transformação.

Não falo necessariamente em pegar em armas, em revolução. Penso em ações reformistas mesmo. Terá acontecido isso (essa filosofia) no Brasil (armas à parte) em Palmares, na Inconfidência Mineira, Revolução Pernambucana, Canudos, Tenentismo, Revolução Constitucionalista, Movimento pela Anistia, Diretas Já, Caras-Pintadas?

Não sei exatamente. Acho que nesses momentos da história do Brasil (talvez a exceção seja Palmares e Canudos) sempre estiveram presentes de forma pré e proeminente as instituições formais, inclusive nos últimos deles a força da Mídia, que como tal penso que poderia ser também considerada como uma “instituição” nacional.

Palmares e Canudos foram gritos contra o poder hegemônico e que partiram dos marginalizados, e, curiosamente, veja-se: significaram (além do aspecto de contestação e afirmação étnica e racial) uma ruptura (e daí a semelhança com a repercussão do gesto da norte-americana) no sistema do modo de produção vigente. Palmares contra o latifúndio e a monocultura; Canudos, não muito diferentemente, contra a Velha República e a incipiente e concentradora industrialização. A norte-americana contra o modo de pensar capitalista.

Podemos dizer, portanto, que nos falta uma insatisfação da cidadania canalizada para o exercício próprio da cidadania, dos direitos e prerrogativas civis, e talvez dessa forma a construção de uma instituição que não seja verticalizada, de cima para baixo. Uma instituição horizontal, dos cidadãos. Uma pátria nova, verdadeiramente democrática. É evidente que não podemos abrir mão das instituições como elas são e estão colocadas agora. Penso, todavia, que podemos, a partir de gestos congêneres aos da ativista negra norte-americana (e da filosofia que esteve presente em Palmares e Canudos), e de tantos outros gestos de outros lugares do mundo, refundar a nossa sociedade, pacificamente, através de fissuras e “sangrias” nos blocos reacionários de poder, rumo a um estado futuro de coisas mais justo, mais equilibrado, mais ético, mais humano.

Lucas Tenório

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