21.12.05

Abelardo da Hora - por Marco Polo

A vida de um mestre de muitas obras

Biografia de Abelardo da Hora revela que, além da vasta produção artística, o pernambucano idealizou inúmeras atividades visando à popularização das artes e à educação do povo













Por Marco Polo

Mestre de mestres. Este é pelo menos um dos títulos que podem ser atribuídos ao artista plástico Abelardo da Hora. Entre tantos outros, pelo menos quatro grandes artistas de Pernambuco estudaram com ele: Francisco Brennand, Gilvan Samico, José Cláudio e Wellington Virgolino. Escultor – atividade pela qual é mais conhecido –, é também desenhista, gravador, ceramista, tapeceiro e poeta, além de ser o idealizador e fundador de alguns marcos das artes no Estado, como a Sociedade de Arte Moderna, o lendário Atelier Coletivo, o Clube da Gravura (cujos trabalhos correram mundo, chegando à Europa, Ásia, África, América do Norte e América Latina) e o Movimento de Cultura Popular. Militante comunista, chegou a pegar em armas contra a polícia e foi preso diversas vezes. Mas sua atividade mais importante na vida pública se deu no campo educacional e artístico. Desde criança, Abelardo sempre foi cheio de idéias e iniciativas. Fazendo os cursos de Desenho e Pintura na Escola de Belas Artes, sugeriu aos professores que fossem feitas excursões a diversos pontos da cidade, a fim de retratar paisagens e lugares diferentes, proposta que não só foi aceita como adotada com entusiasmo.

No Rio de Janeiro, ao trabalhar numa fábrica de confecções, escutou do patrão que as freguesas reclamavam do excesso de visitas das costureiras, a fim de provar e ajustar os vestidos. Sugeriu então que as costureiras fizessem uma única visita à cliente, criando um molde de gesso dos seus corpos, a partir do qual seriam feitos manequins específicos para cada uma, para que neles fossem provadas as roupas. Mais uma vez uma idéia original de Abelardo faria sucesso.

Foi Abelardo da Hora o idealizador do Sítio da Trindade, como espaço para atividades artísticas voltadas para o povo, e onde funcionou uma das “praças de arte” do Movimento de Cultura Popular, que integrava artes plásticas, teatro, música e alfabetização para crianças e adultos, reunindo nomes de peso como o educador Paulo Freire, o teatrólogo Luiz Mendonça, o maestro Geraldo Menucchi e o administrador Germano Coelho. Também de sua cartola mágica saiu o projeto da Galeria Flutuante, uma caixa de cimento e vidro construída sobre o leito do Rio Capibaribe, próximo à Agência Central dos Correios, que atraía, pelo inusitado, a visita da população curiosa que em outra circunstância talvez não se interessasse em visitar exposições de quadros.

Outro fato da rica biografia do artista é que foi ele quem descobriu, na Chapada do Araripe, uma jazida de gesso que se tornaria a maior do Estado, sendo até hoje um pólo de atividades em torno do gesso. Foi também o autor de um projeto de lei que obrigava a instalação de uma obra de arte em construções particulares com mais de mil metros de área construída e em edifícios públicos, quaisquer que sejam as áreas de construção, projeto aprovado por unanimidade na Câmara dos Vereadores, tornando-se lei a partir de 1961. Líder nato, Abelardo organizou diversas exposições coletivas para divulgar a arte pernambucana em outros Estados. E, naturalmente, ao lado de todas essas atividades, construiu uma obra poderosa, na qual se destaca a famosíssima série de 22 desenhos em bico de pena “Meninos do Recife”, em que retrata a infância dos desvalidos da cidade, com pernas e braços finos em contraste com as cabeça grandes, as barrigas inchadas e os olhos imensos de espanto diante de tanta miséria. Aliás, a arte de cunho social é uma das vigas do seu trabalho, tanto em gravuras e desenhos, como em esculturas.

O amor pelo povo e suas atividades também se reflete em uma série de desenhos coloridos retratando os folguedos populares, e nas esculturas de trabalhadores. A outra vertente está nas grandes esculturas de mulheres de corpos e poses sensuais, mostrando um outro lado da personalidade deste artista tão múltiplo e fértil.

Todas estas informações, e muitas outras mais, estão no livro Ensaio com Abelardo da Hora, escrito pelo poeta e ensaísta Weydson Barros Leal, com ampla e completa documentação fotográfica das várias fases e técnicas na obra do artista pernambucano, nascido no município de São Lourenço da Mata, em 31 de julho de 1924. Livro que a gente lê como um romance, espantados com a atividade incessante deste homem pequeno e magro, de onde jorrou um imenso rio de criatividade e realização.
Hoje, simples, Abelardo diz: “Continuo o mesmo rapaz que estudou com o velho Cassimiro Correia e trabalhou montado num andaime, na avenida Guararapes, como operário de construção”. “Rapaz operário” de 81 anos que, lépido e disposto, ainda sobe no alto da casa onde mora com Margarida, companheira desde a década de 40, para consertar alguma telha fora do lugar.










Marco Polo é poeta e editor da Revista Continente Multicultural

http://www.continentemulticultural.com.br/ - Edição Nº 60 - Dezembro de 2005

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