19.2.06

Ariano Suassuna e João Cabral, por Gerson Camarotti

Encontro decisivo com João Cabral

Gerson Camarotti
Enviado especial RECIFE
23/08/2005





http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=701

Há 50 anos, o dramaturgo e romancista paraibano Ariano Suassuna colocava um ponto final na obra que seria uma das mais populares do teatro brasileiro: o “Auto da Compadecida”. No mesmo ano, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto também concluía “Morte e vida severina”, seu poema de maior repercussão. Os dois textos foram escritos no Recife de 1955. E não foi mero acaso, como revela Suassuna cinco décadas depois.

Segundo ele, as duas obras foram escritas num momento de grande troca de idéias entre os dois escritores. Nessa época, acusado de ser subversivo e afastado do Itamaraty, João Cabral voltou para o Recife, onde viveu por três anos. O dramaturgo e o poeta se aproximaram com o mesmo interesse: conhecer de forma mais profunda o romanceiro popular do Nordeste.

— Nós estávamos muito preocupados com o mesmo tema. A gente queria uma identificação entre o povo brasileiro do Nordeste e a literatura que esse povo faz. Nem João era e nem eu sou do povo. Tínhamos em comum a vontade de fazer com que a nossa literatura pulsasse em consonância com esse povo do Brasil real. Não se tratou bem de uma influência mútua. Foi um encontro. Isso aconteceu de maneira extraordinária — revela hoje Ariano Suassuna.

Folheto de cordel deixou João Cabral entusiasmado

Para marcar os 50 anos de pelo menos uma dessas obras, “Auto da Compadecida”, a editora Agir está lançando uma edição especial de luxo. Com ilustrações do artista plástico Dantas Suassuna, o livro comemorativo traz ainda textos do doutor em literatura Carlos Newton Júnior, do escritor Raimundo Carrero e do poeta Bráulio Tavares, além de fotos de montagens históricas da peça no teatro, no cinema e na TV.

O primeiro encontro entre Suassuna e Cabral ocorreu numa conferência sobre poesia que o irmão do poeta, Evaldo Cabral, promoveu no Recife. Ariano deu uma aula sobre o romanceiro popular.

— Lembro que João ficou muito entusiasmado, porque na aula eu li um folheto de cordel em que havia um pedaço em que o boi fazia um testamento. Num trecho, dizia: “Os ossos do boi Espácio/ dão mil pares de botão”. João achou isso maravilhoso.

A partir daí, a convivência foi intensa. João Cabral incorporou-se ao grupo Gráfico Amador, fundado pelo artista plástico Aloísio Magalhães e do qual participava Ariano. O poeta ficou tão animado que lançou pelo Gráfico Amador um pequeno livro, “Aniki-Bobó”, editado por Aloísio. Estimulado pelas experiências em arte gráfica, que tiveram origem com o pintor Vicente do Rego Monteiro, o poeta freqüentava as reuniões do grupo.

Foi num desses encontros que João ouviu de Ariano que no sertão de sua infância, quando alguém encontrava uma pessoa morta no caminho, tinha a obrigação religiosa de ajudar a carregar o corpo. A pessoa que ajudava dizia a frase-ritual: “Chega irmão das almas, não fui eu que matei não”. A frase que já havia sido transcrita na peça “Uma mulher vestida de sol”, de Ariano, está presente numa das principais passagens de “Morte e vida severina”.

João Cabral estava no seleto grupo de cinco integrantes do Gráfico Amador que ouviu a primeira leitura da “Compadecida”. Quando Ariano terminou de ler a peça, o poeta perguntou:

— Me diga uma coisa, você se desconverteu?

— De maneira nenhuma. Não estou falando mal da Igreja. Estou falando do que está errado nas pessoas da Igreja — explicou Ariano.

Poema perdeu as marcações para teatro

O curioso é que nenhum dos dois imaginava o sucesso que teriam “Compadecida” e “Morte e vida”. Até aquela data, Ariano já tinha escrito sete peças, sem ter sido publicado, e apenas uma fora encenada, com pouca repercussão. Já “Morte e vida” por pouco não caiu no esquecimento. O texto havia sido encomendado por Maria Clara Machado em 1954. Depois de pronto, ela disse que o Tablado não tinha condições para levá-lo ao palco. O poema perdeu as marcações para teatro e foi parar no livro “Duas águas”.

Apesar da amizade e troca de experiências sobre o romanceiro popular entre os dois escritores, as obras têm características distintas. Cinco décadas depois, o próprio Suassuna aponta as diferenças e traça um paralelo entre os dois textos:

— No “Auto da Compadecida”, o meu trabalho é mais de teatralização. Existe a presença forte dessas histórias populares dos folhetos de cordel. Já “Morte e vida severina” é todo baseado na invenção poética de João. Tem ligação com romanceiro, mas é um poema dramático com qualidade poética superior. Talvez, por isso, não tenha a possibilidade de atingir o povo como conseguiu a “Compadecida”. Não por minha causa, mas por causa das histórias populares.

(© O Globo)


http://www.nordesteweb.com/not07_0905/ne_not_20050822d.htm

2 Comments:

Blogger João Carvalho said...

Muito bacana seu Blog Camarote. Veja o meu www.jbcfnews.blgspot.com e va mos trocando impressões. Vi seu documentário na GloboNews, espetacular! As citações do poema de João Cabral - morte e Vida... encaixou perfeito! Parabéns!

segunda-feira, novembro 02, 2015  
Blogger João Carvalho said...

Muito bacana seu Blog Camarote. Veja o meu (corrijo neste pois no comentário anterior havia um erro) ok? correto: www.jbcfnews.blogspot.com e vamos trocando impressões. Vi seu documentário na GloboNews, espetacular! As citações do poema de João Cabral - morte e Vida... encaixou perfeito! Parabéns!

terça-feira, novembro 03, 2015  

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