29.1.06

Maria do Carmo Tavares de Miranda - A opção pelo pensar, por José Mário Rodrigues

Dedicada ao exercício filosófico, a pernambucana Maria do Carmo Tavares de Miranda, que foi assistente do filósofo alemão Martin Heidegger, vive uma reclusão voluntária no Recife








Por José Mário Rodrigues


“Nossa Senhora me dê paciência/ Para estes mares para esta vida”. Assim começa Manuel Bandeira um poema-oração, escrito em 1926. No mesmo ano nascia, na cidade de Vitória de Santo Antão, Maria do Carmo Tavares de Miranda. Os versos do poeta pernambucano são um prenúncio de um caminhar, mas podem ser também uma forma de vislumbrar o destino de um ser que encontrou no exercício filosófico, e durante toda a sua vida, o rumo do amor à sabedoria, à compreensão dos princípios, razões e fins de todas as coisas.

O filósofo alemão Martin Heidegger, considerado um dos maiores pensadores do século 20, de quem Maria do Carmo Miranda foi assistente na Universidade de Friburgo, em Brisgóvia, Alemanha, em 1955, dizia que, para pensarmos a nossa existência, imaginássemos despertando em uma floresta sem veredas ou atalhos, pois a existência de cada um de nós é uma mata fechada onde nenhuma estrada foi aberta.

Construindo a sua própria estrada, Maria do Carmo Miranda desde cedo tomou gosto por ouvir estórias e histórias de viagens, de contos que descobriam mundos além do oceano. Em sua casa “entravam e fervilhavam os acontecimentos da época que falavam de religião, de política, de literatura, arte e educação”.

Delineando o percurso – A opção de Maria do Carmo Miranda pela filosofia aconteceu em um discurso em nome de sua turma de concluintes do curso secundário, quando ela questionou a vida e o seu sentido. Daí resolveu ingressar no curso superior de Letras Clássicas para ampliar os conhecimentos já adquiridos do latim e do grego, através do seu pai, o professor André Tavares de Miranda.

As Letras Clássicas, segundo Miranda, seriam o instrumento indispensável para o estudo da Filosofia. Através delas eram sedimentados os primeiros sonhos e ideais, indicando os impulsos, o surgimento de um desejo de saber sobre o homem e o seu mistério, sobre a vida, a morte, a aventura do espírito humano diante de uma vastidão de coisas. “Queria abarcar um mundo de conhecimentos que se desenvolveu em mim. Era o meu desejo dedicar-me à filosofia como uma conquista a ser alcançada pela reflexão pessoal, pela perseverança e ao mesmo tempo continuar em amizade com os clássicos, com a exegese bíblica, com a ciência física”.

Dois textos, um escrito em 1945, “Humanidades Clássicas” e um outro em 1950, que tem o título de “O Mistério do Ser”, surgem como os primeiros pontos centralizadores do seu pensamento, que tem o homem como ex-sistente; a verdade do ser; o tempo e seu distender-se agostiniano – heidggeriano, o tempo do homem.

Miranda leu e releu seus autores preferidos: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant e Martin Heidegger. Com Kant, vislumbrava a descoberta da imaginação transcendental como temporalidade e fundamento metafísico. Com Heidegger, adquiria uma nova visão dos primeiros pensadores gregos e desenrolava os principais fios de interpretação hermenêutica de Platão, de Aristóteles, de Agostinho. Foram esses Mestres da conversão e do pensar que lhe permitiram, reunindo o pensamento grego, o medieval e o moderno, delinear o núcleo de sua reflexão filosófica, sempre buscando o ser e continuando sem cessar a sua busca.

Poderia ter permanecido na Europa, não fosse o sentido de responsabilidade e a própria consciência do dever de retornar à UFPE para continuar a dar aqui o melhor de si mesma em estudos e orientações de trabalhos. Seguia, sem se aperceber, o conselho de Platão sobre a missão do filósofo: “o retorno à caverna para transmitir aos que nela se encontravam o que fora visto à luz do sol”.

Amizade à sabedoria – Quem se dedica aos estudos, aprofunda-se nas pesquisas filosóficas ou científicas, geralmente torna-se avesso a eventos culturais. Miranda não foge à regra. Ela procura viver diante de si mesma, não dos outros. A filósofa ama o conhecimento verdadeiro e ao mesmo tempo é consciente de que não é sábia porque “esse nome só convém a Deus”. Seu modo de vida é a expressão do que é, que experimenta o caminho do seu ser que pensa, pratica a sabedoria e busca compreender a adversidade num exercício contínuo em que estão incluídas a renúncia e a doação.

A reclusão voluntária de Miranda teve um custo: seu nome desapareceu da mídia e sua obra não foi reeditada, até agora. Uma grande injustiça a quem é considerada, nos meios universitários europeus, uma das expressões mais altas da intelectualidade brasileira.

Diante de sua sala de jantar, há uma litogravura do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal, que ela se acostumou a ver desde menina, como expressão de uma lembrança de família, tecendo todos os seus dias. A filósofa de Paris, como a chamava carinhosamente Gilberto Freyre, estará completando 80 anos em agosto de 2006. A litogravura permanecerá na parede da sala. O país, sofrido e desconfiado, elegerá seus novos dirigentes. Nós continuaremos, para homenagear Maria do Carmo Miranda, a leitura do poema de Bandeira, que também iluminará o nosso dia-a-dia: “Nossa Senhora me dê paciência pra que eu não caia/ Pra que eu não pare nesta existência”.

(Leia mais na edição nº 61 [janeiro de 2006] da Revista Continente Multicultural.)










José Mário Rodrigues é poeta, jornalista e bacharel em direito pela UFPE. Autor dos livros de poesia Trem de Nuvens e Alicerce de Ventania, entre outros.

http://www.continentemulticultural.com.br/

1 Comments:

Blogger Eis que estou convosco até o fim said...

incrivel como uma mulher com essa sabedoria, fique sem ter livros publicados, isso é reeditados.
andei procurando "Filofia da Natureza' de sua autoria, e não achei.
Uma pena pois fui sua aluna na UFPE,e me deliciava com suas aulas, com seu conhecimento, e de Santuza.
e foi com ela que aprendi que o sábio pode ser humilde, pois ela tinha paciencia, pois nos via como pequeninos alunos.
é bom ter a oportunidade de agradecer a vc , mestra tudo que aprendi.
um grande beijo
maria roberta mayrinck cabral da costa

quinta-feira, junho 11, 2009  

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