27.10.05

Nordestinados - Marcus Accioly

"A safra que se espera
A mão do dono apanha,
Porque a mão que lavra
A pedra à mão, não ganha.
Porém recolhe a larva
Da pedra não estranha,
Pois se colher da safra
A mão que lavra apanha.

A mão que lavra sente
A pedra que se alarga
Quando o suor escorre
Da larga fronte amarga.
A pedra, mais estéril
Que o chão de argila ou marga,
Transforma a vida dura
Na vida mais amarga.

A pedra amarga a vida
Contrária à pedra, fraca,
A vida que se corta
Na pedra-gume, faca.
Porém, a vida pouca,
A própria pedra ataca
E, sendo apenas corte,
Se torna às vezes faca.

A vida corta a pedra
Mas ao cortar se corta
Na pedra quase-viva
A vida quase-morta.
A vida, igual à safra
Que o grão da pedra aborta,
De novo volta à pedra
Depois da vida, morta."

A PEDRA LAVRADA

In Nordestinados, Marcus Accioly,
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1971,
pp.18-19

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