28.12.05

Gilberto Freyre - por Lêda Rivas

A MÍSTICA DO MESTRE:
Oito anos após sua morte, Gilberto Freyre ainda provoca polêmica

Lêda Rivas

Imundo. Infame. Obsceno. Os adjetivos com os quais a intelectualidade ultrareacionária pernambucana saudou, em 1933, o lançamento de Casa-Grande & Senzala, vaticinaram o destino polêmico do seu autor, Gilberto Freyre, incensando à época já como um renovador da Sociologia brasileira, traçaria seu caminho de cientista social, sob o signo da discussão. Os extremistas de direita que pontificiaram à sombra da Revolução de 30 e prepararam o País para o Estado Novo, foram implacáveis no julgamento da obra, cujo, autor recém-chegado do exílio, amargava o empastelamento do jornal que dirigia. A Província, e passava a escrever na Folha do Povo, diário do Partido Comunista Brasileiro. Como se não bastasse, Freyre havia sido um dos organizadores do I Congresso Afro-Brasileiro, organização definida por Afonso Arinos de Melo Franco, em artigo publicado na Imprensa do Rio, como "demagógica e revolucionária, que estimula a luta de raças, preparatória para a luta de classes".

A vocação transgressora de Gilberto Freyre iria mais longe. Em agosto de 35, terminaria despertando a ira dos opositores ao utilizar, possivelmente de forma pioneira no Brasil, a palavra ecologia, num longo texto em que defendia a floresta amazônica e condenava, violentamente, a devastação do meio ambiente. Tais crimes não ficariam impunes. A ousadia custou ao sociólogo-antropólogo um processo no Departamento de Ordem Política e Social, o famigerado Dops, além de enquadramento da Lei de Segurança Nacional. O mensário Fronteiras, revista simpática ao movimento patriovinista, que tinha como slogan "Ordem: Autoridade: Nação" e era dirigida pelo escritor Manoel Lubambo e o artista plástico Vicente do Rego Monteiro, foi contundente. "Ele fala em ecologia, pois os leitores brasileiros gostam de palavras pomposas e o autor sabe cortejar esse apetite", vociferou Lubambo.

A revista voltaria à carga em várias edições, chegando a pregar a proibição da venda de Casa-Grande & Senzala, livro que, então, começava a seduzir os jovens estudantes. Como as alunas da Escola Normal, às quais sua leitura fora recomendada pelo professor Estevão Pinto. Editorial de Fronteiras, em primeira página, de autoria de Rego Monteiro, faria o alerta: "Os pais das normalistas precisam ler essa obra da mais descabelada pornografia para saberem o que Pinto ensina às suas alunas da Escola Normal. O caso, pela extrema gravidade de que se reveste, está a exigir severas providências do diretor da Escola e do secretário da Educação".

Escândalo na província – Quando, em 36, Gilberto Freyre lançou Nordeste, a revista exacerbou os ataques. O livro não passava de uma "Sociologia dos detalhes. Sociologia dos morcegos, da cobra, do gato, da raposa, do guará e até do carrapato e do lacrau e do bicho-de-pé. Não tem nada de novo. Depois dos pitus do rio Una, nada mais pode ser descoberto neste País".

Veio Sobrados e Mucambos, recebido pelos conservadores como mais um trabalho subversivo, de incentivo "à luta de classes entre as cozinheiras e as donas de casa no Nordeste Brasileiro".

Embora Gilberto considerasse a sua obra "pró-católica", foi no Congresso Eucarístico Nacional de 1939, que se viu praticamente exposto à excreção pública, num apelo do professor José Cavalcanti de Sá Barreto, que em discurso apontava Casa-Grande & Senzala como "aquele vasto arsenal de pornografia, salpicado cá e lá de blasfêmias próprias e alheias, blasfêmias religiosas e científicas". Quase que paralelamente, Manoel Lubambo voltava a investir em Fronteiras: "Considero esse livro como um ensaio dos mais perniciosos de sedução comunista no Brasil. Seu intuito é predispor, de criar ambiente propício, fazendo do brasileiro nato o resultado democrático da miscigenação, reduzindo a uma proporção mínima a participação ariana. Para ele, o brasileiro é um produto afro-índio escravizado por uma minoria branca. Considero Casa-Grande & Senzala um livro pernicioso, dissolvente, antinacional, anticatólico, anárquico e comunista".

Fronteiras circulou até 1940. Sem dar tréguas a Gilberto Freyre, cuja obra ganhava então dimensão e reconhecimento internacionais.

Esquerda, volver – Se, durante tanto tempo, os ideólogos da direita desdenharam a obra gilbertiana, as esquerdas não foram menos intolerantes. Alijado dos currículos universitários, banido das considerações supostamente eruditas, Freyre foi inscrito no index das discussões acadêmicas. O primeiro intelectual de esquerda a reconhecer a verdadeira importância do estudioso foi o antropólogo Darcy Ribeiro, ao prefaciar e elogiar a primeira edição de Casa-Grande & Senzala, em Espanhol. Mais tarde, referindo-se ao livro, Darcy sintetizou: "O trivial é que o importante, a vida é feita do trivial, Gilberto assumiu isso maravilhosamente". E terminou decodificando a maldição de Freyre. "O gôsto pela literatura fez com que ele transformasse um ensaio científico num livro legível".

Um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil, Astrojildo Pereira, viu em Casa-Grande & Senzala "um livro de ciências escrito numa linguagem literária de timbre inusitado, numa linguagem atrevidamente nova mas muito nossa; um livro que dava categoria a muita palavra vulgar; e sobretudo um livro que tomava como protagonista central não os heróis oficiais, mas a massa anônima". A grande maioria dos pensadores esquerdistas, entretanto, não partilhava das considerações do primeiro secretário do PC do B.

Supõe-se que as divergências ideológicas começaram quando Freyre fez críticas a Marx. E recrudesceram quando o sociólogo defendeu o AI-5 como salvaguarda necessária para proteger o Brasil de "forças estrangeiras interessadas em desagregá-lo". Um dos primeiros intelectuais a apoiar o golpe de 64, Gilberto chegou a participar da elaboração do programa da extinta Arena. Aos que o criticavam então, reagia: "É curioso que eles se intitulem liberais, democratas avançados, quando defendem e servem ao mais totalitarismo que existe. Combati o nazi-facismo com o mesmo ânimo com que repudio o totalitarismo soviético. Este age no Brasil através do patrulhismo ideológico, distribuindo pechas de reacionário aos verdadeiros revolucionários".

Já no fim da vida, proclamavam um "conservador revolucionário", que pregava uma revelação que conservasse algumas tradições essenciais da comunidade. Definia-se: "Sou um homem de matizes. Sou, antes de tudo, um homem dos paradoxos. Acho que quase todas as verdades tem paradoxos. Tenho a tendência de escandalizar os bem-pensantes. Os paradoxos chocam os bem-pensantes e chocam também os matemáticos que pensam em linha reta".

Narcisista, auto-referente, atrevido, já havia dito antes: "Sou o único gênio vivo". A direita riu. A esquerda também. Cada uma à sua maneira.

O mestre revisitado – Gilberto Freyre morreu em 17 de julho de 1987 vendo sua obra reconciliada com muitos dos seus contestadores. Sua morte não promoveu nenhuma revolução nos velhos clichês ideológicos, mas já se pode discutir o seu pensamento sem medo de se incorrer em nenhum pecado. Dos muitos que fizeram restrições ao estilo gilbertiano podemos registrar agora se não adesão total, pelo menos, respeito e admiração. Os exemplos são vários.

O próprio Afonso Arinos de Melo Franco, tão crítico de Gilberto nos anos 30, fez-se amigo do "mestre de Apipucos" e rendeu-se ao seu talento. Como conferencista e debatedor, participou algumas vezes no Recife do Seminário de Tropicologia, criado por Freyre. Presidente da Comissão de Sistematização, proferiu um longo discurso na tribuna da Assembléia Nacional Constituinte, dias após a morte do sociólogo, destacando a respeito de Casa-Grande & Senzala: "O livro tem aquele estilo desmanchado, às vezes malicioso, às vezes imprevisto, tocando pontos que eram considerados pouco razoáveis numa literatura científica, trouxe uma inovação formidável na forma e conseguiu, então, trazer também para o século XX a maneira de pensar e maneira de dizer o pensamento científico".

Para o economista Celso Furtado, então ministro da Cultura à época do falecimento do escritor, o papel liberador de Freyre se deve ao fato de que o escritor "nunca foi um revolucionário convencional, amarrado por uma ideologia. Foi muito mais profundo, chegando às raízes da formação da sociedade brasileira. Por isso chocou tanto. Acompanhei Gilberto Freyre desde o começo de sua obra e considero que foi o pensador brasileiro que mais contribuiu para liberar os preconceitos de nosso povo. Não só com respeito à raça, mas com relação a outros tabus de nossa cultura". Opinião referendada por Jorge Amado, que, apesar de velho amigo de Gilberto, tinha com ele muitas divergências políticas: "Ele nos fez mais brasileiro, revelou o que nós somos e o que é a nação brasileira".

Membro da "escola sociológica paulista", apegada ao rigor científico e que tinha Florestan Fernandes como o maitre a penser, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu em 1973 na revista Senhor-Vogue um artigo em que reconsiderava suas idéias sobre Casa-Grande & Senzala. Foi uma espécie de "ato de contrição", disse, depois, o então senador do PMDB: "Freyre me capturou. Não por sua "ciência", mas por ter sido capaz de propor um mito-fundador. Casa-Grande & Senzala e o próprio Gilberto Freyre são partes constitutivas do Brasil: falsos ou verdadeiros, a obra e o criador, pela força macunaímica que têm, expressam o que nós somos".

O sociólogo petista Florestan Fernandes, por sua vez, reconhece: "Os sociólogos de esquerda deram mais importância à luta de classes. Gilberto Freyre via muito as coisas do ponto de vista da casa-grande e os que vieram depois estavam mais preocupados com a senzala. O fato de existirem estas duas correntes só enriquece nosso conhecimento".

Instigador de idéias

O professor e jurista Gláucio Veiga, que advoga para si a autoria da primeira "análise sistemática" da obra de Gilberto Freyre publicada no início dos anos 50 na Imprensa recifense, foi também, o primeiro a sugerir a introdução na Universidade Federal de Pernambuco, de uma cátedra Gilberto Freyre. Justificava sua proposta com dois objetivos. Primeiro, "reverter tanto quanto possível a acentuação flutuante da nossa Universidade em direção a um ditongo mais sonoro: a regionalização, tanto quanto possível, da Universidade". E segundo: "Alterar a habitual, porém, com todas as vênias, não eficaz metodologia de acesso à obra de Freyre. A maior parte dos analistas do pensamento de Freyre, principalmente os geracionados em Pernambuco, não distingue a admiração pessoal de amizade de uma objetiva crítica".

Embora a introdução de uma disciplina especial dedicada a Gilberto Freyre nos nossos cursos de terceiro grau ainda não seja uma realidade, a recente criação de um Núcleo de Estudos sobre o escritor, na Fundação Joaquim Nabuco, com respaldo de instituições de ensino superior, poderá estimular a discussão da obra e da personalidade de Gilberto Freyre em outros campi. O interesse que o pensamento gilbertiano tem despertado nos cursos de pós-graduação vem se acentuando nos últimos anos, com a defesa de teses e dissertações que tratam de mostrar uma visão incomum do sociólogo-antropólogo pernambucano. Esse conhecimento tardio é explicado pelo sociólogo Roberto Da Matta: "O preconceito com que Gilberto Freyre e sua obra ainda são vistos em meios acadêmicos prejudicou a correta avaliação de seu legado". Para Da Matta, existe uma leitura errônea e limitada, uma crítica esquerdizante da obra de Freyre. "A vida pessoal dele pode ter levado a essa leitura negativa, mas é importante ressaltar que ele é um autor muito mais complexo do que supõe nossa vã Sociologia. Não podemos simplesmente enquadrá-lo numa única gaveta".

Em tese de doutorado em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – Guerra e Paz - Casa-Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre – o antropólogo Ricardo Benzaquen desfaz alguns clichês sobre o pensamento de Freyre. O ensaio, lançado pela Editora 34, agitou os meios intelectuais ainda resistentes às idéias gilbertianas. Da mesma forma que suscitou reações a recente defesa de dissertação de Mestrado em história pela UFPE, do jornalista Mário Hélio, Gilberto Historiador, na qual sustenta ter sido o próprio Freyre que escreveu a sua primeira biografia, e não seu primo Diogo de Mello Menezes.

Afinal, qual é a mística do mestre? Oito anos após sua morte, Gilberto Freyre continua surpreendendo, indignando, fascinando e, sobretudo, polemizando. O etnólogo carioca Raul Lody, gilbertólogo convicto, revela: "Encontrei na Tropicologia caminhos sensíveis e de fortes fundamentos científicos. Percebi que a ciência não precisa ser triste para ser séria". E conclui: "Gilberto é pura emoção".

O mestre, se vivo fosse, adoraria.


http://prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/

Fonte: RIVAS, Lêda. A mística do mestre: oito anos após a sua morte, Gilberto Freyre ainda provoca polêmica. Diário de Pernambuco. Recife, 22 fev. 1999.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Publicação incorreta, Gilberto Freyre morreu no dia 18 de julho e não no dia 17, ele morreu no dia 18 de julho às 4 horas da madrugada devido ter se submetido a uma cirurgia para a introdução de um marcapasso.

quarta-feira, março 30, 2011  

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